Organização do espaço III – chamada para a mudança

Tendo em conta as características e os elementos a respeitar na organização do espaço que já reflecti aqui e aqui, surge um desafio: aplicar a teoria na prática.

Para mim não há sentimento melhor do que ter a minha sala e ter na minha mão, não a educação de dez crianças, mas o privilégio de ajudar no desenvolvimento de dez sujeitos que serão futuros cidadãos autónomos, livres e solidários na nossa sociedade e ainda poderão ter um papel fundamental na nossa sociedade e na construção do futuro do próximo.
Procuro portanto fornecer as ferramentas essenciais e mais importantes às minhas crianças para que elas possam definitivamente deixar um marco no futuro.

No inicio do ano, com os escassos materiais que tinha, disponha apenas de uns brinquedos de interesse sonoro e visual mas que não funcionavam, de legos e livros.

O primeiro passo a dar e para o qual não precisei de pensar duas vezes foi etiquetar as caixas que adquiri para separar os brinquedos. Há medida que fui somando mais brinquedos, diferentes, surgiam mais caixas. Inicialmente metia os brinquedos e eles exploravam, só quando observava que eles já sabiam o que continha naquela caixa é que com eles colocava as etiquetas.

E realmente tudo se constrói na sala se observarmos os comportamentos das nossas crianças e compreendermos o que os mesmos indicam. As minhas já sabiam de trás para a frente e de frente para trás o que cada caixa continha e se tinham desarrumado as bolas onde é que as tinham de guardar. Os brinquedos já estavam mais do que explorados e eles não se entretinham tanto com eles. Tinha de fazer alguma coisa para provocar o interesse das minhas crianças na hora de brincadeira livre (ou de trabalho autónomo).

Realmente as crianças chamavam-me muito para ir brincar com elas. E quando eu me sentava ao pé delas a brincar elas sossegavam e ficam imensamente interessadas naquilo que se estava a passar e acabávamos por participar todos na brincadeira. Eu sempre me sentei junto das crianças para brincar com elas, ao nível delas. Mas por vezes quando tinha que fazer outras coisas, mais não fosse mudar uma fralda, elas desorientavam-se sempre. Isto levou-me a pensar que as crianças precisavam de momentos de aprendizagem orientados. Mas eu não queria que elas se interessassem naquilo que estavam a fazer apenas quando eu estava presente!

Tudo bem que na planta construída, a minha sala de 1 ano se denomine “Sala parque” e isso chateia-me porque parece que é para as crianças passarem do dia na brincadeira e não fazerem nada, ou seja, desvalorização total das capacidades das crianças; e só a partir dos dois anos é que se intitula “Sala de actividades”… Mas eu estou decidida a acabar com esse termo. Para isso apenas necessito de: observar, observar, observar, reflectir, reflectir, reflectir e AGIR.

Organização do espaço físico II

O espaço é um acumular de recursos de aprendizagem e desenvolvimento pessoal. Justamente por isso, é tão importante a organização dos espaços de forma a que se constitua um ambiente rico e estimulante de aprendizagem.

No entanto, quando planeamos essa organização devemos ter em conta que existem elementos que condicionam essa mesma organização do espaço, não só na creche como em outros níveis de escolaridade.

Em muitos locais de muita chuva ou de temperaturas fortes é necessário prever a existência de espaços cobertos para realizar os recreios. O ambiente pode fornecer-nos espaços que podem ser utilizados como espaços alternativos ou complementares para a realização de certas actividades. O espaço de que ele dispõe transcende, assim, as quatro paredes habituais da sala de aula.

Segundo Hennings (1978), a sala de actividades “(…) fixa de modo permanente as actividades a realizar já que afecta o comportamento das pessoas dentro desse espaço e a maneira como se comunicarão umas com as outras.”. O mobiliário e os materiais podem condicionar em dois aspectos: a quantidade, excesso do mesmo ou falta, o importante é que existam os suficientes para proporcionar um trabalho rico; e o tipo, nos materiais: variedade de materiais, a segurança, a organização.

Ainda assim existem dois elementos essenciais a considerar: as crianças e os educadores. A idade das crianças condiciona fortemente o nível de autonomia e o seu leque de competências, ao que se deverá equacionar a forma de organização tendo em conta aquilo que as crianças já demonstram ter capacidades para ou se estão aptas para as adquirir. Ainda as necessidades que elas apresentam, que variam bastante, momentos de sossego – proporcionados quando a criança precisa, o que implica um espaço apropriado para tal fim – como momentos de agitação; estes dois momentos indicam uma necessidade de separação dos espaços para que quando as crianças estão mais agitadas e a desenvolver actividades mais energéticas não incomodem as outras. No entanto deve-se procurar ter em conta as características dos locais do qual procedem desenvolvendo uma dupla função: vincular os interesses e actividades habituais das crianças e, ao mesmo tempo, abrir novos horizontes.

Um elemento fundamental nos educadores é o modelo educativo que adoptam. E isto implica os valores e a ideologia de cada um, que fazem parte da sensibilidade que se é capaz de levar para o seu trabalho educativo. A experiência profissional pode ser factor de melhoramento da sua prática pedagógica ou indicador de inércia que, às vezes, é difícil interromper. E ainda, mais ou menos criatividade que o educador possui no momento de criar alternativas para projectar o espaço. Neste âmbito considera-se que a organização do espaço não é estanque e que ela evolui com o grupo e assim é modificada quando é necessário. A organização do espaço deve também responder às exigências apresentadas pelos diferentes métodos quanto à realização de actividades e momentos da rotina, implicadas aqui as áreas de actividades que as salas possuem.

Se tivermos em conta o grande poder do ambiente como facilitador, segundo Zabalza (1987), perceberemos a importância de fazer um planeamento dos espaços que seja coerente com os nossos modelos metodológicos.

Organização do espaço físico I

Zabalza (1987), refere-se ao espaço como uma estrutura de oportunidades e contexto de aprendizagem e de significados.

Quando reflectimos sobre a organização do espaço da nossa sala de actividades deveremos considerar aquilo que maioritariamente existe e que motiva o funcionamento das actividades e do trabalho na nossa sala: o mobiliário e os materiais didácticos. Um espaço dividido em diversas áreas ou em espaço aberto com mobiliário variado, com uma estrutura definida, irá proporcionar às crianças não apenas diferentes dinâmicas de trabalho como também uma diferente relação adulto/criança. Os materiais didácticos constituem outro indicador válido do tipo de actividades que as crianças realizam e da forma como a creche enfrenta as necessidades das crianças pequenas. Na seleção destes materiais devemos ter em conta a sua procedência, uma vez que os materiais comportam implicitamente alguns valores e uma determinada concepção metodológica; a sua disposição e apresentação levam a que a exploração individual crie diferentes dinâmicas de trabalho na sala de actividades o que irá diversificar e facilitar as interacções das crianças.

Como tudo deverá ser desenvolvido tendo em conta as crianças. O espaço deverá ter uma organização dos materiais apta para eles, ou seja, devem estar ao alcance das crianças, onde a sua organização apresenta uma estrutura lógica, e que estejam rotulados e devidamente etiquetados, para que seja marcada uma relação diferente das crianças com os objectos. Todos estes factores contribuem inevitavelmente para sugerir e estimular diferentes tipos de actividade, tendo em conta que os materiais são provocadores da actividade infantil e, portanto, a leitura do tipo de materiais que há dentro da sala de aula oferece uma boa ideia do tipo de trabalho que é realizado na mesma.

Voto plenamente na decoração da sala elaborada pelas crianças, no entanto, isso não implica que o educador não utilize algumas decorações essenciais que fomentem exclusivamente a educação para a sensibilidade estética da criança, transformando a decoração num conteúdo de aprendizagem.